Muitos escritores acreditam que a arte deriva da vida, e O Autor leva isso a outros extremos, mostrando como uma pessoa pode se inspirar na vida de pessoas que até então não faziam ideia de que estavam sendo retratados em uma obra de ficção.

O filme, lançado pela Netflix, é um thriller dramático adaptado do livro do escritor Javier Cercas, e entretém em todos os seus lances, e vale o play por conta de sua história que, inclusive, pode estar acontecendo com você neste momento.
A premissa do filme é interessantíssima e vai ficando cada vez mais soturna e pesada, e seria um filme muito melhor se houvesse uma melhor decisão do diretor Martin Cuenca sobre o seu tom: é uma comédia de humor negro ou um drama de costumes?

Nós nunca ficamos sabendo: apesar do roteiro avançar num crescendo, a direção parece meio morta, neutra demais para um texto tão forte.

Colocando a realidade na ficção

O personagem principal, Álvaro (interpretado por Javier Gutierrez) é muito bem construído em sua melancolia por não conseguir escrever seu tão sonhado romance, ao passo que sua mulher Amanda (papel de Maria Leon), ao escrever um livro totalmente despretensioso, ficou famosa e ganhou até prêmios.

Isso aumenta a amargura do homem, e ao descobrir que ela o traia, ele se muda para um apartamento.

É aí que o filme começa de verdade, pois ele resolve se inspirar em seus vizinhos para escrever seu próprio livro de sucesso.

Isso tem o efeito de animar sua prosa, que até então tinha a falta de ar da escrita que imitava outros melhores escritores.

Mas Álvaro não se contenta em usar a personalidade de seus vizinhos como matéria-prima. Em vez disso, conscientemente ele os lança em conflitos e ações que ele pode usar em seu enredo, ao ponto em que Álvaro está incentivando um crime a acontecer.

Claramente, vemos em O Autor o vazio humano como tema de uma história impressionante sobre como as pessoas são capazes de manipular a realidade para conseguir o que querem.

O filme tem imagens muito bem captadas, com a fotografia destacando sempre as situações, e é fácil simpatizar com Álvaro, mesmo reprovando suas atitudes.

Ele é um homem sem brilho, que não faz diferença na sociedade e persegue um sonho aparentemente impossível. Sendo frustrado, faz de tudo para ter o controle da situação.

Quem de nós já não passou pela mesma situação?

Havia mais a melhorar

Talvez a sensibilidade irônica do livro de Cercas seja difícil de traduzir para a tela, mas O Autor não se esforça muito com as ferramentas à sua disposição: muitas vezes parece indefinido, falhando, por exemplo, para obter qualquer imagem de maior impacto. A direção de arte é pouco inventiva, sempre apostando no branco como uma metáfora para o vazio de ideias de Álvaro – e convenhamos isso é meio batido. No entanto, o material em si ainda empresta ao filme seus prazeres genuínos, embora demasiado modestos.
Ao final de O Autor, fica um gosto de que algo está faltando. Acompanhamos a jornada desse homem ordinário e parece que a conclusão ainda deixa pontas soltas. Dessa forma, a sensação que fica é a de uma história muito boa, mas incompleta.

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