Algumas obras conseguem, em pouco tempo, um sucesso absurdo, o que, às vezes, pode soar estranho, à primeira vista. É o caso da série animada Ricky e Morty, criada por Justin Roiland e Dan Harmon em 2013.
Sim, estranho, pois, a série é, pra dizer o mínimo, um mistura de Family Guy com South Park, embalada por uma boa dose de Cosmos e Star Trek. De fato muito esquisito, não?
Além de tudo, é uma série que usa e abusa de sarcasmos, ironias, violência gráfica, termos ultra-científicos, mensagens pessimistas e um tom totalmente politicamente incorreto.
Como algo assim caiu nas graças do público?
A resposta talvez esteja naquilo que encontramos em outras séries do tipo. Por mais surreais e absurdas que certas estórias possam parecer, elas só funcionam porque há uma alta carga de humanidade nelas, o que se traduz numa espécie de identificação.
Peguemos, por exemplo, o personagem Ricky. Ele é um cientista inteligentíssimo, quase onipotente na série em termos de ciência, consegue elaborar as engenhocas mais fascinantes do mundo para sair de todas as enrascadas possíveis e imagináveis, porém é alguém muito humano, com inúmeros defeitos, egoísta, arrogante, e que bebe e usa drogas para poder fugir de uma realidade insuportável para ele.
O mesmo pode ser dito de seu neto, Morty, que ainda no início da primeira temporada se mostrava uma pessoa tranquila, amável e com esperança na humanidade. A mudança de comportamento dele, no entanto, foi inevitável.
No convívio com o avô, no decorrer dos episódios, ele passou a ficar cada vez mais frio, desesperançado, imediatista e violento.
É no dilema desses dois personagens que a espinha dorsal de Ricky e Morty questiona: será que vamos abandonar o que nos torna humanos em nome de avanços científicos?
Um interessante debate que, inclusive, dialoga com outra série seminal dos últimos anos, Black Mirror.
E, esse tipo de reflexão, mesmo que exposto em Ricky e Morty de maneira escrachada é uma das principais atrações da animação, que se propõe a provocações filosóficas, mas, sem ser pedante.
Ou seja, são temas complexos de pessoas comuns, como você ou eu.
Mas, claro, exigem outros fatores que fazem de Ricky e Morty uma série tão irresistível, e um deles é o improviso. Isso mesmo: improviso em uma animação.
Como a dublagem é feita antes da realização do desenho em si, o roteiro mesmo com uma linha principal bem delimitada, abre espaço para os dubladores fazerem algo de diferente em termos de diálogos, o que torna tudo mais autêntico, e muitas vezes, bem mais engraçado.
Evidentemente que as piadas na animação tiram sarro de tudo e de todos, desde os religiosos aos céticos, passando pelas instituições da família, do governo e até de noções mais abstratas, como vida e morte.
Mas, principalmente, a grande galhofa fica por conta da crítica ao comportamento moderno, mais precisamente em como as pessoas (e não-pessoas) lidam com as novas tecnologias `disposição.
E, por fim, é correto salientar um ponto muito positivo na série, que são os episódios interligados, todos com conexão.
Isso possibilita não somente desenvolver melhor os personagens, mas, também o de criar a possibilidade de haver um universo rico de referências, que se utiliza da cultura pop para falar de temas pesados, complexos, e, por que não?, necessários.
Sendo bem clichê: essa geração das redes sociais precisava de uma série como Ricky e Morty.