Friedkin acompanha a trajetória do Padre Amorth, o responsável pelos exorcismos chancelado pelo Vaticano

Em 1974, William Friedkin tinha pouco mais de 35 anos e era um jovem diretor já vencedor do Oscar pelo seu trabalho na direção de Operação França, três anos antes.

Tendo um fascínio por questões da dualidade entre o bem e o mal, ele encontrou no roteiro de William Peter Blatty a chance de fazer uma incursão sobre essa temática.

Então, surgiu “O Exorcista”, hoje considerado um clássico incontestável do cinema de terror.

Muitos anos depois, mais especificamente em 2016, o diretor já idoso finalmente conseguiu acompanhar, ao vivo, uma sessão de exorcismo na Itália, e obteve autorização para gravar o que viu. A partir daí ele novamente se vê no meio do confronto entre céu e inferno, Deus e o Diabo.

O resultado é esse documentário sensacional, que acaba de estrear pela Netflix.

Vade retro, Satanás

Friedkin acompanha a trajetória do Padre Amorth, o responsável pelos exorcismos chancelado pelo Vaticano, para tirar o demônio do corpo de uma arquiteta italiana de quase 40 anos que afirma estar possuída pelo Satanás em pessoa.

Ela já está em seu oitavo exorcismo, e Padre Amorth e Friedkin embarcam na nona tentativa de salvar a alma dessa mulher.

O maior barato do documentário é não fazer julgamentos. O diretor consegue registrar toda a sessão com o veterano padre, que à época da filmagem tinha 91 anos, e fazer uma abordagem quase neutra, mostrando o vídeo do exorcismo para neurologistas e psiquiatras analisarem as causas que afligem a mulher, que possam ir além das questões religiosas. E a cada nova entrevista, ele se surpreende. E nós também.

Afinal, quem é Padre Amorth?

Ao longo da projeção, ficamos sabendo quem é o padre Gabriele Amorth, um simpático e adorável senhor nonagenário que ainda manteve disposição para realizar exorcismos aparentemente exaustivos mesmo nessa idade.

É impressionante como ele consegue aparentar – e passar – calma para os interlocutores, para as pessoas em volta e para quem assiste em casa.

Um dos grandes pecados do documentário de Friedkin é não dar mais espaço para o Padre Amorth contar histórias de exorcismos passados.

O filme foca mais na figura do próprio diretor (que, como Hollywood inteira já sabe, é exibicionista e gosta de roubar a cena dos outros) o que pode estragar um pouco o clima de suspense.

Falando nisso, o primeiro ato é absolutamente sensacional: Friedkin explica os motivos que o levaram a filmar “O Exorcista”, revisita locações e começa a explicar como chegou até o velho padre.

O ponto de virada está justamente na filmagem do exorcismo, que pode dividir opiniões.

O que se pode adiantar é que não é nada do que se mostra nos filmes, mas não deixa de ser impressionante e às vezes, assustador.

Essa gravação é exibida no meio do documentário, já que em seu terço final Friedkin passa a peregrinar entre pesquisadores para descobrir se há algo que possa explicar o fenômeno presenciado por ele.

Entre o céu e o inferno

No fim das contas, O Diabo e o Padre Amorth vale como curiosidade de como funciona o ritual católico de exorcismo, e pela figura carismática do padre.

Friedkin, sabendo do impacto que uma gravação praticamente caseira pode fazer na psique do público (provavelmente ele assistiu “A Bruxa de Blair”), não faz questão nenhuma de enquadramentos clássicos ou movimentações de câmera elegantes.

Quase tudo é filmado com uma câmera semiamadora, e isso dá uma sensação muito incômoda na cena do exorcismo.

Para quem gosta de filmes com essa temática, os 60 minutos de O Diabo e o Padre Amorth são memoráveis.

Mas, para quem apenas gosta de filmes de terror, pode ser um pouco frustrante, mas não menos interessante.

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